Cleber Teixeira

A história da Editora Noa Noa é uma espécie de memória impressa do aprendizado do poeta Cleber Teixeira, de sua educação de escritor e, em suas próprias palavras, um “mergulho profundo que diz respeito à criação literária, à manufatura do livro”. Sempre o livro como um poema de amor ao livro, às artes gráficas e à tipografia. Não foi Augusto de Campos quem chamou Cleber Teixeira de poeta da edição?

O projeto editorial da Noa Noa apresenta, principalmente, livros de poesia e, na sua maior parte, traduções – muitas delas feitas pelo próprio Augusto de Campos. Nesta mostra do Gabinete do Livro apresentamos trinta e um livros divididos em: livros do poeta Cleber Teixeira, livros de outros escritores brasileiros e livros de escritores estrangeiros.

 

 

Além de poeta e editor, Cleber Teixeira era também tipógrafo e impressor dos livros da Editora Noa Noa. Seu projeto gráfico é de uma simplicidade sofisticada, com composições tipográficas tradicionais: “não é por acaso que eu preservo um desenho clássico, quer dizer, eu quero a minha folha de rosto, que para muita gente é convencional, aquilo que é fruto de uma busca, é aquilo que eu quero. Estou preservando, estou tentando resgatar uma tradição, estou indo atrás daqueles editores-impressores do século XVI, XVII”.

Os livros da editora Noa Noa – nome retirado do livro de Paul Gauguin, e que significa terra perfumada – têm este encantamento do lugar do gesto da tipografia, da mão do tipógrafo. E Cleber Teixeira tinha consciência de que o processo de composição manual proporcionava este convívio físico, quase uma relação íntima, com os poetas que estava editando: “ao construir o verso, letra por letra, palavra por palavra, eu me sentia convivendo com aqueles poetas. A presença deles me acompanhava dia e noite”.

Por Flávio Vignoli

Trajetória de Cléber Teixeira

O poeta, tipógrafo e editor Cleber Teixeira nasceu em 20 de setembro de 1938 em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Estudou Letras e frequentou a Escola de Belas Artes, convivendo com a efervescência cultural do Rio de Janeiro nas décadas de 1960 e 70. Foi revisor da Editora Civilização Brasileira em 1974, trabalhou no Instituto Nacional do Livro de 1971 a 1973, e na Editora Bloch de 1974 a 1977.

Em paralelo com as atividades profissionais e com a poesia, criou a Editora Noa Noa, produzindo manualmente seu primeiro título em 1965. Em 1966 conseguiu adquirir uma máquina impressora movida a pedal, da mesma marca utilizada também por Virginia Woolf, viabilizando a edição de livros compostos e impressos em tipografia com tipos móveis. Em 1977 transferiu-se para Florianópolis, dedicando-se integralmente à Noa Noa.

Editou livros de autores consagrados na literatura nacional e estrangeira, novos escritores que procurou divulgar e sua própria produção literária, somando cerca de 70 títulos, além de cartazes e impressos de pequeno formato, como calendários, plaquetes e cartões de arte. Em toda essa produção procurou reunir a qualidade da obra literária a um projeto gráfico de simplicidade sofisticada, com composições tipográficas tradicionais.


Ao longo dos anos constituiu uma biblioteca com cerca de oito mil volumes, abrangendo diversas temáticas, com ênfase em Artes Visuais, Livros sobre Livros e Literatura, utilizada por estudantes e pesquisadores que o procuravam. Promoveu e apoiou juntamente com outros intelectuais, eventos que contribuíram para a movimentação cultural em Florianópolis.

A Editora Noa Noa foi desde sempre um espaço aberto para receber frequentemente amigos, artistas, escritores, estudantes e pesquisadores do cenário catarinense e brasileiro.

Cleber Teixeira faleceu em 2013, e em 20 de setembro de 2018 estaria completando 80 anos. Sua trajetória tem sido tema de diversas publicações, pesquisas acadêmicas e homenagens.